O governo russo divulgou os seus números económicos de 2026 através da Rosstat, o serviço federal de estatística 789101112. No papel, os dados existem. O problema é o que vem a seguir: confiar neles.
“Quando a agência estatística é um braço da comunicação estatal em vez de registo empírico, os números tornam-se teatro performativo.”
Não é um problema novo. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022, o aparelho estatístico russo tem operado numa realidade paralela. Economistas independentes passaram anos a triangular o desempenho económico real a partir de volumes de exportação de energia, imagens de satélite de instalações industriais e dados comerciais de países parceiros. A distância entre as alegações de Moscovo e a realidade observável tem aumentado constantemente. Agora, com os números de 2026 em mãos, a questão é se alguém fora do Kremlin ainda está a ouvir.
A credibilidade da Rosstat depende de duas coisas: transparência metodológica e verificação independente. Ambas têm sido erodidas. O serviço deixou de publicar certas desagregações regionais em 2023. Os números do comércio transfronteiriço com estados 'hostis' são agora agregados de formas que obscurecem os fluxos bilaterais. Os cabaz de inflação foram ajustados para excluir bens que ou estão indisponíveis ou cujos preços embaraçariam a narrativa. Quando a agência estatística é um braço da comunicação estatal em vez de registo empírico, os números tornam-se teatro performativo.
O governo russo negou várias alegações relacionadas com manipulação de dados 234561314, mas negar não é o mesmo que abrir os livros. As sanções ocidentais cortaram a maioria dos canais de auditoria internacional. O FMI e o Banco Mundial têm acesso direto limitado. O que nos resta é um cartão de resultados auto-reportado por um governo com todos os incentivos para inflar o crescimento, subestimar a inflação e mascarar o custo de uma economia de guerra a funcionar a todo o vapor.
Considere-se a despesa militar. The Guardian reportou em 2007 — muito antes da fase actual — que os orçamentos de defesa russos estavam a aumentar acentuadamente, levantando receios de uma rivalidade renovada com o Ocidente 1. Isso foi há quase duas décadas, quando o escrutínio ainda era possível. Hoje, a despesa militar é incorporada em categorias mais amplas, reclassificada ou simplesmente omitida. Os números de 2026 dificilmente revelarão quanto está a ser gasto na produção de drones em fábricas automóveis convertidas, ou quantos trabalhadores foram redirecionados da manufactura civil para linhas de montagem de projéteis de artilharia. Estes não são detalhes menores; são a estrutura da economia.
Há aqui um ponto mais amplo sobre a infraestrutura de confiança nos dados económicos globais. Mercados, decisores políticos e analistas dependem de uma assunção basilar de que os números publicados, embora imperfeitos, estão ligados à realidade. Quando uma grande economia desliga as suas estatísticas dessa assunção, cria um nevoeiro que se estende para lá das suas fronteiras. Mercados energéticos, fluxos de commodities e modelos de risco geopolítico requerem todos alguma estimativa da saúde económica russa. Se os dados oficiais são ficção, as conjecturas preenchem o vazio — e conjecturas movem mal os mercados.
Nada disto significa que a economia russa esteja a colapsar, nem que esteja a prosperar. A verdade é que não sabemos com confiança, e essa incerteza é ela própria uma forma de disrupção económica. Até que a Rosstat opere como uma agência estatística em vez de um departamento de propaganda, os números de 2026 — e quaisquer que se sigam — serão arquivados sob 'alegações' em vez de 'dados'.
