Segundo múltiplas contagens rápidas 413202228, Roberto Sánchez ultrapassou Keiko Fujimori por uma fracção — 50,14% contra 49,86% — na segunda volta de domingo. A margem é suficientemente estreita para que os resultados finais ainda possam mudar, mas a verdadeira história não é quem venceu. É que Fujimori, que liderou a primeira volta 810171825 e comandava o maior bloco parlamentar 8, não conseguiu transformar o domínio da direita numa vitória decisiva. A direita peruana domina o legislativo — a Força Popular de Fujimori detém 41 deputados e 22 senadores, com partidos menores de direita a preencher as lacunas 8 — mas não conseguiu unir-se em torno da sua candidata quando isso mais importava.
“Fujimori herdou a máquina do pai e garantiu o maior bloco parlamentar, mas não conseguiu unir uma direita fragmentada quando isso mais importava.”
A fractura começou na primeira volta. Rafael López Aliaga, o empresário de extrema-direita que ficou de fora da segunda volta por pouco 8101718, respondeu ao terceiro lugar lançando o que múltiplos meios descrevem como uma campanha de desinformação contra as autoridades eleitorais 81017, acusando-as de fraude apesar das desmentidas da União Europeia e de autoridades peruanas 810. O Júri Nacional de Eleições considerou as queixas infundadas e confirmou que a segunda volta se realizaria 81018, mas o dano estava feito: os apoiantes de López Aliaga alimentaram o ressentimento em vez de se unirem em torno de Fujimori. Quando chegou a segunda volta, alguns blocos de centro-direita apoiaram-na 232730 enquanto outros — nomeadamente o País Para Todos, que obteve 1,3 milhões de votos na primeira volta 16 — recusaram-se a apoiar qualquer candidato, insistindo que não iriam "impor directrizes" aos apoiantes 16.
O campo de Fujimori confundiu força institucional com lealdade eleitoral. Ela herdou a máquina do pai, garantiu o maior ponto de apoio monopartidário num congresso fragmentado 8, e enfrentou um adversário em Sánchez cujo partido Juntos pelo Peru detém apenas 32 deputados e 14 senadores 8. No entanto, a aritmética do legislativo bicameral peruano — reinstaurado pela primeira vez desde 1990 81018 — não garante maioria a ninguém 8. Fujimori governará, se governar, negociando com rivais que passaram a campanha a recusar-se a apoiá-la.
A leitura convencional é que este foi um referendo sobre a dinastia Fujimori. A interpretação mais arguta é que a direita peruana perdeu a disciplina que outrora a tornava formidável. Um candidato de esquerda conseguiu passar porque a direita não conseguiu concordar se as alegações de fraude importavam mais do que travá-lo. Sánchez, que a BBC informa [segundo contagens rápidas corroboradas em diversos meios 413202228] ter vencido pela mais curta das margens, herda um legislativo estruturado para o obstruir. Fujimori, entretanto, liderará a oposição a partir de uma posição de força numérica e exaustão política. A direita venceu o congresso e pode ainda perder a presidência — uma proeza de auto-sabotagem que definirá a política peruana pelos próximos cinco anos.
