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Edição n.º 75 · O resumo de hoje
IlustraçãoHindsite · Arte editorial

O Mundial Que Engoliu a América do Norte

Quando o torneio de 2026 arrancar em três nações, será o maior, mais longo e mais improvável Mundial da história — um teste não só ao futebol, mas às ambições da FIFA e à capacidade de um continente para as absorver.

O Aperto de Mão de Um Bilião de Dólares

Numa tarde de junho em Moscovo, na sede de vidro e aço do 68.º Congresso da FIFA, os delegados de 211 associações-membro abriram as suas urnas eletrónicas e votaram em algo que nunca tinha sido tentado antes: um Mundial dividido por três países, dois fusos horários e 16 cidades espalhadas por uma extensão territorial do tamanho da Europa . A candidatura conjunta — uma proposta dos Estados Unidos, Canadá e México — derrotou o desafio marroquino com 134 votos contra 65 . O que aprovaram não foi apenas a seleção de anfitriões, mas uma reimaginação fundamental do evento-rainha do futebol. O Mundial FIFA de 2026 envolverá 48 seleções, o maior número da história do torneio . Decorrerá durante dois meses, com início a 11 de novembro, e incluirá 104 jogos — mais quarenta do que a edição de 2022 no Qatar. Será, por qualquer medida, o maior e mais longo Mundial alguma vez realizado .

A decisão de expandir foi tomada anos antes. Em janeiro de 2017, o conselho regulador da FIFA aprovou por unanimidade o novo formato, expandindo o torneio de 32 para 48 equipas . O plano original previa 16 grupos de três equipas cada, mas a FIFA acabou por abandonar essa estrutura . Em vez disso, o torneio de 2026 contará com 12 grupos de quatro equipas, preservando o ritmo tradicional da fase de grupos do Mundial enquanto acomoda o plantel inflacionado . A mudança foi vendida como democratização — mais nações, mais jogos, mais receitas — mas representou também uma aposta. Poderia um torneio desta escala manter coerência? Poderiam três países, com culturas futebolísticas e infraestruturas vastamente diferentes, coordenar um evento que se estenderá por oito mil quilómetros de Vancouver à Cidade do México?

A resposta, a dezoito meses do pontapé de saída, permanece incerta. O que é certo é que o Mundial de 2026 testará os limites do modelo organizacional da FIFA e o apetite da América do Norte pelo jogo mundial.

Um Mapa Demasiado Grande Para Dobrar

A geografia por si só é assustadora. Dezasseis cidades receberão jogos : onze nos Estados Unidos, três no México e duas no Canadá. A final será disputada numa de três candidatas — Nova Iorque, Dallas ou Los Angeles — embora a FIFA ainda não tenha anunciado qual. O México acolherá dez jogos, incluindo a cerimónia de abertura do torneio na Cidade do México . O Canadá, por seu turno, dará as boas-vindas ao mundo com a sua própria cerimónia de abertura repleta de estrelas , um sinal de que o anfitrião setentrional pretende reivindicar a sua fatia dos holofotes.

Os desafios logísticos são imensos. As equipas enfrentarão calendários de viagens que fariam uma banda de rock em digressão estremecer. Um jogo da fase de grupos em Vancouver seguido de um encontro dos oitavos de final em Miami exigiria uma viagem de quase cinco mil quilómetros. A FIFA reconheceu o problema ao estabelecer 14 bases operacionais pelos países anfitriões , mas a dispersão do torneio levanta questões sobre equidade competitiva. Terão as equipas com itinerários de viagem mais curtos uma vantagem tática? Chegarão os jogadores aos jogos a eliminar já fatigados por voos transcontinentais?

A seleção masculina dos Estados Unidos, pelo menos, terá a vantagem do terreno familiar. Os anfitriões iniciam a sua jornada no Mundial de 2026 em Los Angeles, disputando o seu primeiro jogo da fase de grupos no SoFi Stadium a 12 de junho . O estádio, uma reluzente arena de 70.000 lugares inaugurada em 2020, é uma das várias instalações de última geração que a candidatura norte-americana destacou na sua proposta vencedora. Mas a vantagem de jogar em casa traz as suas próprias pressões. Os EUA, Canadá e México qualificar-se-ão todos automaticamente para o torneio — uma disposição que os poupa à provação da qualificação regional mas que também os priva de preparação competitiva. Para os EUA, que falharam a qualificação para o Mundial de 2018, o que está em jogo é especialmente elevado. Uma má exibição em casa seria uma humilhação sentida em cada uma das 11 cidades anfitriãs americanas.

As Guerras do Formato

A decisão da FIFA de abandonar o formato original de 16 grupos surgiu tarde no processo de planeamento, um raro recuo público de uma organização não conhecida por se questionar a si própria . A estrutura inicial — grupos de três equipas com duas a avançar — tinha sido criticada como taticamente perversa. Teria encorajado futebol defensivo e aberto a porta à conluio, uma vez que os jogos finais dos grupos seriam disputados em simultâneo com ambas as equipas a saber exatamente que resultado precisavam. Pior ainda, arriscava produzir uma enxurrada de desempates por grandes penalidades, já que equipas terceiras classificadas com registos idênticos necessitariam de um mecanismo para desempatar.

O formato revisto — 12 grupos de quatro — restaurou a estrutura tradicional enquanto criava um novo problema: como preencher um quadro de 48 equipas. A solução é uma fase a eliminar híbrida em que as duas primeiras equipas de cada grupo avançam, juntamente com os oito melhores terceiros classificados . É um compromisso desajeitado, que introduz um grau de aleatoriedade no sorteio. Uma equipa terceira classificada que se esgueira pela diferença de golos poderá enfrentar um vencedor de grupo nos trinta e dois avos de final, enquanto outro terceiro classificado poderá ter um caminho mais favorável. O formato garante 104 jogos , mas não garante coerência.

Ainda assim, a expansão proporcionará o que a FIFA mais valoriza: mais jogos, mais bilhetes, mais janelas de transmissão. O torneio exigirá uma janela internacional de 16 dias e quatro jogos em setembro e início de outubro, bem como janelas de nove dias e dois jogos em março, junho e novembro . Para os clubes, o calendário representa uma intrusão indesejada. As ligas europeias perderão os seus jogadores durante semanas a fio, e o calendário expandido comprimirá ainda mais a época de clubes. Mas o cálculo da FIFA é claro: o Mundial é o principal motor de receitas da organização, e um torneio de 48 equipas gerará milhares de milhões em rendimentos adicionais.

O modelo financeiro estende-se à venda de bilhetes. A FIFA anunciou que utilizará preços dinâmicos para os bilhetes do Mundial , uma prática emprestada das companhias aéreas e promotores de concertos. Os preços flutuarão com base na procura, o que significa que os adeptos que esperem demasiado tempo para comprar poderão ficar impedidos de assistir aos jogos mais importantes. A decisão tem sido criticada como uma busca desenfreada por dinheiro, mas reflete a estratégia mais ampla da FIFA: maximizar as receitas a cada oportunidade, e deixar o mercado determinar quem assiste.

A Ofensiva da Marca

A dezoito meses do primeiro jogo, o Mundial de 2026 já é um produto de consumo. A FIFA revelou o logótipo oficial do torneio , um design que foi recebido com troça pelos adeptos que se queixaram de falta de imaginação . A bola oficial também foi revelada , tal como o cartaz oficial . A Lego lançou uma linha de mercadorias do Mundial , e um álbum de cromos com os jogadores do torneio já está à venda . O aparelho comercial está em pleno funcionamento.

O hino também chegou. Megan Thee Stallion, David Guetta, EJAE e Andrea Bocelli juntaram-se para "DNA", a canção oficial do Mundial FIFA 2026 . É uma mistura curiosa — rap, música eletrónica de dança e vocais operísticos — que parece concebida para não ofender ninguém nem encantar ninguém. A canção segue a tradição dos hinos do Mundial que visam um apelo global e alcançam uma insipidez global. Os esforços anteriores de Shakira pelo menos tinham a vantagem de serem cativantes ; "DNA" é meramente obrigatório.

Cada cidade anfitriã também lançou a sua própria marca . Vancouver, por exemplo, anunciou uma "formação de apoiantes da Cidade Anfitriã de classe mundial" , enquanto Boston se prepara para receber equipas para estágios de treino . O exercício de branding reflete a natureza descentralizada do torneio. Ao contrário de Mundiais anteriores, que foram organizados em torno da identidade de uma única nação anfitriã, a edição de 2026 tem de acomodar três marcas nacionais distintas. O resultado é uma cacofonia visual — um torneio que arrisca parecer uma feira comercial em vez de um evento desportivo unificado.

A Sombra da Geopolítica

À medida que o torneio se aproxima, surgiu uma nova fonte de incerteza: a política. No início de 2025, o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma suspensão abrangente do processamento de vistos para cidadãos de 75 países . A medida, que afeta 15 nações que se qualificaram para o Mundial de 2026 , ameaça impedir jogadores, staff e adeptos de entrarem nos Estados Unidos. A política tem sido comparada à proibição de viagens de 2017, que suscitou preocupações de que os EUA pudessem ser incapazes de acolher o Mundial .

A suspensão de vistos lança uma sombra sobre o formato tri-nacional do torneio. Embora México e Canadá não estejam sujeitos às restrições de viagem dos EUA, a maioria dos jogos — incluindo, potencialmente, a final — será realizada em cidades americanas. Se jogadores de nações afetadas não conseguirem obter entrada, a integridade desportiva do torneio poderá ser comprometida. A FIFA ainda não emitiu uma resposta pública à crise dos vistos, mas o silêncio da organização é revelador. O Mundial sempre existiu num contexto político — os torneios de 1978 na Argentina, 2018 na Rússia e 2022 no Qatar prosseguiram apesar de preocupações com direitos humanos — mas a edição de 2026 poderá testar a capacidade da FIFA para navegar turbulências geopolíticas em tempo real.

A Human Rights Watch, num relatório publicado um ano antes do torneio, alertou para "ataques crescentes aos direitos" nas nações anfitriãs . A organização destacou abusos laborais na construção de estádios, restrições à liberdade de expressão e o tratamento de migrantes e requerentes de asilo. O relatório enquadrou o Mundial de 2026 como um teste ao compromisso declarado da FIFA com os direitos humanos, um compromisso que tem sido mais honrado na retórica do que na prática.

Os Concorrentes Reunem-se

O plantel está quase completo. A Tunísia garantiu a qualificação com um golo nos descontos , enquanto a República Democrática do Congo e o Iraque também carimbaram os seus bilhetes, completando o puzzle de 48 equipas . A Itália, entretanto, falhará o seu terceiro Mundial consecutivo , um colapso impressionante para uma nação que ganhou o torneio quatro vezes. A Bósnia-Herzegovina está entre as seleções europeias que se qualificaram , acrescentando a uma fase de grupos que contará com uma mistura sem precedentes de potências futebolísticas e participantes estreantes.

O formato expandido permitiu que mais nações sonhassem, mas também diluiu a intensidade competitiva do torneio. Um Mundial de 48 equipas garante mais disparidades na fase de grupos, mais goleadas, mais jogos que importam apenas às equipas envolvidas. A compensação — maior representação global — é defensável, mas tem um custo. O Mundial sempre foi especial em parte porque é exclusivo. Expandir o plantel torna o torneio mais democrático, mas também o torna menos rarefeito.

Ainda assim, a edição de 2026 proporcionará histórias. A qualificação automática das três nações anfitriãs significa que Estados Unidos, México e Canadá competirão todos, uma raridade num torneio onde normalmente apenas um anfitrião joga. Os EUA e o México, rivais regionais acérrimos, poderão encontrar-se na fase a eliminar, uma perspetiva que eletrificaria ambas as nações. O Canadá, há muito um peixe pequeno no futebol masculino, terá a oportunidade de provar que o seu ressurgimento recente é mais do que um acaso. E o formato expandido do torneio garante que nações mais pequenas — equipas que nunca se teriam qualificado sob o sistema antigo — terão o seu momento no palco global.

O Ajuste de Contas

O Mundial de 2026 será o primeiro realizado na América do Norte desde que os Estados Unidos foram anfitriões em 1994 . Esse torneio foi um sucesso comercial, atraindo públicos recorde e apresentando o desporto a um público americano cético. Mas o Mundial de 1994 foi também um assunto mais modesto: 24 equipas, 52 jogos, nove cidades anfitriãs. A edição de 2026 é uma proposta inteiramente diferente. É um torneio concebido para a era da hiper-comercialização, em que cada aspeto do evento — desde o preço dos bilhetes à seleção do hino — é otimizado para extração de receitas.

A questão é se o futebol pode justificar o espetáculo. Um torneio de 48 equipas e 104 jogos arrisca tornar-se uma maratona, uma prova que esgota jogadores, adeptos e emissoras. A fase de grupos estender-se-á por semanas, e as eliminatórias carecerão da urgência que define o Mundial no seu melhor. A aposta da FIFA é que a escala por si só gerará entusiasmo, que mais futebol é inerentemente melhor futebol. Mas a história do torneio sugere o contrário. A magia do Mundial sempre residiu na sua compressão — quatro semanas de intensidade, a obsessão de uma única nação, um momento global partilhado. A edição de 2026 ameaça trocar intensidade por dispersão, urgência por ubiquidade.

Há também a questão do legado. O Mundial de 1994 ajudou a estabelecer a Major League Soccer e apresentou uma geração de americanos ao desporto. O torneio de 2026, espera a FIFA, fará o mesmo pelo Canadá e México enquanto aprofunda as raízes do jogo nos Estados Unidos. Mas o impacto a longo prazo de um Mundial depende de mais do que números de assistência. Depende de o torneio inspirar jovens jogadores, de mudar a conversa cultural, de deixar para trás algo mais do que um relatório de receitas.

Os primeiros sinais são mistos. A crise dos vistos ameaça eclipsar o futebol. A marca parece corporativa em vez de inspirada. O formato permanece um trabalho em progresso, uma experiência que poderá vindicar as ambições da FIFA ou expô-las como loucura. E no entanto o Mundial persiste. Persiste porque o futebol é resiliente, porque o jogo sobrevive mesmo às piores decisões dos seus governantes, porque a perspetiva de ver os melhores jogadores do mundo competir no maior palco do mundo permanece irresistível.

"O Mundial de 2026 será o maior Mundial FIFA de sempre."

A promessa é simultaneamente eletrizante e ominosa. Maior nem sempre significa melhor. Mas em junho de 2026, quando a cerimónia de abertura iluminar a Cidade do México e o primeiro apito soar, o mundo sintonizará. Fazemo-lo sempre. A questão é se, quando a final for disputada em Nova Iorque, Dallas ou Los Angeles , olharemos para trás para o torneio como um triunfo ou um conto de aviso — o Mundial que provou que o modelo da FIFA podia escalar para qualquer dimensão, ou aquele que provou que há limites mesmo ao apelo global do futebol.

Sources

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