A Fila na Fronteira
Nas cidades fronteiriças chilenas onde expatriados peruanos se reuniram para votar em maio de 2026, as filas estendiam-se por quarteirões e o ambiente era tenso . Testemunhas relataram desordem no processo de votação — um pequeno caos a ecoar um maior. Na terra natal, os seus compatriotas escolhiam entre dois candidatos profundamente polarizadores numa segunda volta eleitoral que muitos encaravam não como uma disputa entre visões, mas como um referendo sobre a sobrevivência. O Peru, que passou por sete presidentes em nove anos , votava mais uma vez. E mais uma vez, ninguém podia dizer com certeza o que viria a seguir.
A escolha perante os eleitores era clara em termos ideológicos, mas esbatida pelo cansaço e pelo cinismo. Keiko Fujimori, filha do ex-autocrata preso Alberto Fujimori, representava a direita — embora o seu próprio historial incluísse três tentativas presidenciais falhadas e múltiplas investigações por corrupção. Roberto Sánchez, um ex-governador regional de esquerda, oferecia uma alternativa que muitos eleitores consideravam apelativa em princípio, mas preocupante pela falta de experiência nacional. Entre ambos estendia-se um abismo de desconfiança que parecia alargar-se a cada sondagem.
O que tornava esta eleição diferente da recente sucessão de convulsões políticas peruanas não era o drama — há sempre drama — mas o que estava em jogo. O país já não era simplesmente instável. Aproximava-se do colapso, segundo a avaliação de analistas e cidadãos. A criminalidade tinha-se transformado de um problema persistente numa ameaça existencial . Redes criminosas organizadas, fortalecidas por uma década de caos político, tinham-se incrustado no aparelho estatal e na economia . E o governo cessante de Dina Boluarte, ele próprio produto de mais uma destituição, tinha perdido o que restava da sua legitimidade depois de forças de segurança terem morto manifestantes — incluindo crianças — no que a Amnistia Internacional caracterizou como execuções extrajudiciais .
A segunda volta entre Fujimori e Sánchez decorria, por outras palavras, não numa democracia funcional, mas nas suas ruínas.
Os Números Que Não Se Fixavam
Nas semanas que antecederam a segunda volta de maio, as empresas de sondagens divulgaram uma cascata de inquéritos que contavam uma história consistente: a corrida era demasiado renhida para prever. Uma sondagem Ipsos dava a Keiko Fujimori 39 por cento contra 35 por cento de Sánchez . Outra sondagem Ipsos para o Peru21 mostrava margens semelhantes . Outra empresa, medindo a temperatura do eleitorado, encontrou Fujimori com 39,5 por cento e Sánchez com 36,1 por cento . O Instituto de Estudos Peruanos colocava Fujimori em 36 por cento e Sánchez em 30 por cento . Todas as sondagens apontavam na mesma direção: Fujimori mantinha uma pequena vantagem, mas dentro da margem de erro, e uma parte significativa dos eleitores permanecia indecisa ou recusava-se a responder.
Depois vieram as sondagens a medir diretamente a segunda volta. Um inquérito sugeria que 57 por cento dos eleitores consideravam o próximo debate decisivo na determinação da sua escolha — um número impressionante num país onde a confiança nas instituições se tinha erodido até quase nada . Dias antes da votação, o empate técnico apertou-se ainda mais . Analistas políticos falavam de uma eleição por uma unha negra, do tipo em que alguns milhares de votos em distritos-chave podiam determinar o resultado.
A primeira volta tinha sido caótica por mérito próprio, com uns recordistas 35 candidatos a fragmentar o voto no que observadores chamaram a eleição mais fragmentada do Peru em 25 anos . Que Fujimori e Sánchez emergissem da refrega para se defrontarem na segunda volta era menos sinal da sua popularidade do que das profundas divisões do eleitorado. Nenhum comandava uma maioria; ambos representavam, para grandes segmentos da população, um futuro inaceitável. A segunda volta não era tanto uma escolha quanto uma seleção forçada entre medos.
Quando as urnas foram contadas e as contagens rápidas divulgadas, o fio da navalha transformou-se num corte de papel. A Datum, uma das empresas de sondagens mais respeitadas do país, reportou Roberto Sánchez com 50,14 por cento e Keiko Fujimori com 49,86 por cento . A margem era de 0,28 pontos percentuais — um sussurro estatístico. Mas outra contagem rápida, também da Datum, inverteu o resultado: Fujimori com 50,53 por cento, Sánchez com 49,47 por cento . Meios de comunicação brasileiros e colombianos, citando fontes no Peru, noticiaram que Fujimori tinha alcançado uma "vantagem irreversível" e tornar-se-ia a próxima presidenta .
A discrepância entre as duas contagens da Datum — e as narrativas conflituantes que produziram — capturava a incerteza fundamental. Num país onde as instituições tinham sido esvaziadas por crises repetidas, até a mecânica da contagem de votos se tinha tornado terreno contestado.
A Quarta Tentativa da Filha
O caminho de Keiko Fujimori até esta quase vitória (ou quase derrota, dependendo de qual contagem se acreditasse) tinha sido longo, sinuoso e marcado por escândalo. Tinha-se candidatado à presidência três vezes antes — em 2011, 2016 e 2021 — perdendo de cada vez, frequentemente na ronda final. A sua identidade política era inseparável da do pai: Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000, primeiro como reformador democrático que derrotou a insurgência do Sendero Luminoso, depois como autoritário que dissolveu o Congresso, manipulou eleições e supervisionou uma teia de corrupção e abusos de direitos humanos. Cumpria pena de prisão por crimes incluindo o massacre de civis quando a filha lançou a campanha de 2026.
Para os seus apoiantes, Keiko representava ordem, segurança e um regresso nostálgico à relativa estabilidade dos anos 90, quando a mão de ferro do pai trouxe a inflação sob controlo e sufocou a insurgência. Para os detratores, personificava os mesmos instintos autoritários, o mesmo desprezo pelas normas democráticas, as mesmas redes de corrupção que quase tinham destruído o país anteriormente. Ela própria tinha estado presa preventivamente a aguardar julgamento por acusações de branqueamento de capitais ligadas à gigante construtora brasileira Odebrecht; foi posteriormente libertada, mas as acusações mantinham-se.
Num país agarrado pelo crime, porém, a promessa de mano dura — a mão pesada — de Fujimori encontrava uma audiência recetiva. Eleitores exaustos pela violência e insegurança estavam dispostos, em números significativos, a ignorar os seus problemas judiciais em troca da perspetiva de segurança. A campanha apostava fortemente na retórica da lei e ordem, e as sondagens sugeriam que funcionava, pelo menos o suficiente para a manter competitiva.
O Governador das Províncias
Roberto Sánchez era, sob muitos aspetos, o oposto de Fujimori. Ex-governador regional de esquerda, faltava-lhe o perfil nacional dela e a sua máquina partidária. O seu apelo assentava na identidade de outsider, alguém não manchado pelo establishment político de Lima que tinha presidido à descida do Peru. Falava de justiça social, anticorrupção e reforma constitucional — um programa que ressoava com eleitores mais jovens e aqueles nas regiões rurais e andinas que se sentiam abandonados por sucessivos governos.
Mas Sánchez carregava os seus próprios handicaps. O seu mandato como governador tinha sido marcado por acusações de ineficiência administrativa e questões sobre a capacidade de gerir um governo nacional. Tinha pouca experiência em política externa ou gestão económica, e as suas posições esquerdistas alarmavam as elites empresariais e eleitores de classe média que temiam uma repetição de experiências populistas passadas. Mais preocupante para alguns era a sombra de Pedro Castillo, o ex-presidente de esquerda que tinha sido destituído em 2022 após tentar dissolver o Congresso. A breve e caótica presidência de Castillo tinha deixado a esquerda manchada por associação, e Sánchez lutava para se distinguir desse fracasso.
Contudo, a proximidade da corrida sugeria que uma porção significativa do eleitorado estava disposta a correr o risco. A coligação de Sánchez incluía grupos indígenas, sindicatos e eleitores urbanos progressistas que viam Fujimori como uma ameaça existencial à democracia. Para eles, a escolha não era entre dois candidatos imperfeitos, mas entre esperança imperfeita e desastre certo.
O Estado Que Não Conseguia Governar
Por detrás das personalidades e das sondagens jazia uma crise mais profunda: o Estado peruano, como entidade funcional, deixara de existir em qualquer sentido significativo. A estatística de sete presidentes a alternarem no cargo em nove anos era abreviatura de um colapso tão total que desafiava explicação fácil. A destituição tinha-se tornado rotina. A presidente Dina Boluarte, que assumira o cargo após a destituição de Pedro Castillo, foi ela própria destituída após apenas quatro meses . Antes da sua destituição, a sua presidência pendia por um fio, a legitimidade destroçada pela crise de violência que se seguiu a um ataque ao grupo musical Agua Marina em Lima .
O padrão era consistente: um presidente tomava posse, enfrentava oposição do Congresso, tentava governar através de decreto executivo ou confronto, e depois era removido — por destituição, renúncia ou prisão. O Congresso, entretanto, tinha-se tornado um teatro de corrupção e exibicionismo, os seus membros mais interessados em ganho pessoal do que em governação. O resultado era paralisia. Nenhum presidente conseguia implementar políticas; nenhuma reforma conseguia ganhar tração; nenhuma instituição conseguia reconstruir confiança.
Para este vácuo, o crime organizado avançara com eficiência implacável. Uma década de caos político abrira a porta a redes criminosas para infiltrar instituições estatais, cooptar governos locais e dominar regiões inteiras . O que antes eram bolsas isoladas de tráfico de droga e extorsão tinha-se transformado numa crise nacional. O crime era agora a questão que dominava as mentes dos eleitores , mas nenhum candidato oferecia uma solução credível porque o aparelho estatal necessário para combater o crime tinha sido esventrado por anos de instabilidade.
A violência não era abstrata. Forças de segurança, operando com impunidade na ausência de supervisão eficaz, tinham morto manifestantes — incluindo crianças — em operações que a Amnistia Internacional documentou como execuções extrajudiciais . O Estado não era meramente fraco; era predatório, virando o seu poder coercivo contra os próprios cidadãos em espasmos de brutalidade que apenas aprofundavam a crise de legitimidade.
A Eleição Que Pode Não Importar
Enquanto as contagens de votos gotejavam e a margem permanecia impossívelmente estreita, pairava outra questão: o resultado seria sequer mantido? Rafael López Aliaga, candidato de direita eliminado na primeira volta, emitiu um aviso que sugeria que a resposta poderia ser não. Declarou que "o pessoal da ONPE [Gabinete Nacional de Processos Eleitorais] e do JNE [Júri Nacional de Eleições] partilhará uma cela de prisão com o chefe da Ipsos" , uma acusação extraordinária de fraude eleitoral lançada contra as autoridades eleitorais do país e uma das suas empresas de sondagens mais proeminentes.
A declaração era incendiária e, no contexto da história recente do Peru, de mau agouro. Na eleição de 2021, a própria Fujimori tinha alegado fraude após perder por pouco para Pedro Castillo, e os seus apoiantes montaram protestos que ameaçaram levar o país à violência. A acusação nunca foi fundamentada, mas envenenou a atmosfera e deixou uma porção significativa do eleitorado convencida de que o sistema estava manipulado. Agora, com a corrida de 2026 ainda mais renhida e a podridão institucional ainda mais profunda, o cenário estava montado para uma repetição — ou pior.
O campo de Sánchez, segundo relatos, preparava-se para a possibilidade de protestos sobre fraude . Os apoiantes de Fujimori, encorajados por alegações de uma "vantagem irreversível", podiam reagir com fúria se uma contagem final revertesse o resultado. A margem de fio de navalha significava que qualquer resultado podia ser contestado e, num país onde as normas democráticas tinham sido despedaçadas, não havia mecanismo de consenso para resolver disputas. O Supremo Tribunal era desconfiado; o Congresso era desprezado; as autoridades eleitorais estavam sob ataque. Quem quer que emergisse como presidente fá-lo-ia sob uma nuvem de suspeita, enfrentando apelos imediatos à sua remoção.
A Escolha Que Não Foi
No fim de contas, a eleição peruana de 2026 era menos um exercício democrático do que um sintoma de falha democrática. Pedia-se aos eleitores que escolhessem entre duas figuras que representavam visões concorrentes de autoritarismo: a nostalgia do Estado-segurança de Fujimori e o reformismo populista de Sánchez, cada um carregando as sementes do seu próprio desastre. A proximidade da corrida refletia não a força de qualquer candidato, mas a paralisia do eleitorado, a sua incapacidade de coalescer em torno de qualquer visão positiva para o futuro do país.
A desordem relatada em estações de voto no Chile era um microcosmos da desordem em casa. Peruanos no estrangeiro, muitos deles refugiados económicos da própria instabilidade que agora eram chamados a resolver através das suas urnas, faziam fila para depositar votos que podiam não ser contados com precisão, numa eleição cujo resultado podia não ser aceite, para um governo que podia não durar.
O que a eleição revelava, mais do que qualquer coisa, era a profundidade do colapso institucional do Peru. O Estado não conseguia fornecer segurança, não conseguia prestar serviços, não conseguia sequer conduzir uma eleição sem acusações de fraude e colapsos na logística básica. O crime organizado tinha preenchido o vazio deixado pela paralisia política , e nenhum candidato tinha um plano plausível para reverter a infiltração. A eleição mais fragmentada em 25 anos tinha produzido uma escolha binária que não satisfazia quase ninguém, e o empate técnico significava que cerca de metade do país consideraria o vencedor ilegítimo desde o primeiro dia.
A questão não era se o próximo presidente podia resolver os problemas do Peru. A questão era se restaria um Estado funcional para governar. Sete presidentes em nove anos , uma antecessora destituída cujo mandato durou quatro meses , forças de segurança a matar civis com impunidade , redes criminosas incrustadas no Estado — isto não era o prelúdio de uma reforma. Era o fim de jogo de um colapso.
E assim, enquanto as contagens e recontagens continuavam, enquanto as acusações voavam e os protestos eram planeados, o Peru preparava-se para inaugurar o seu sétimo presidente numa década. Se esse presidente seria Keiko Fujimori ou Roberto Sánchez importava menos do que o facto de nenhum poder reverter a trajetória. A eleição não era um ponto de viragem. Era mais um marco numa estrada que levava, com crescente clareza, à desintegração.
Os eleitores que fizeram fila no Chile, e aqueles que fizeram fila em casa, compreendiam isto melhor do que ninguém. Não estavam a escolher um líder. Estavam a escolher qual crise suportar a seguir.