A expressão que mais se encontra na cobertura das eleições peruanas é "campo recorde" [21]. Trinta e cinco candidatos concorreram à presidência na primeira volta. Não é gralha. Trinta e cinco. A Wikipédia em espanhol informa [8] que isto produziu "uma forte dispersão dos votos" — uma forte dispersão dos votos — que é o tipo de expressão que se usa quando se está a ser educado quanto ao caos.
O que ninguém diz em voz alta é que trinta e cinco candidatos não são sinal de vitalidade democrática. São sinal de que a palavra *partido* deixou de significar alguma coisa. Quando Keiko Fujimori ficou em primeiro lugar na primeira volta com 17% dos votos [8], fê-lo conquistando menos de um voto em cada cinco. Roberto Sánchez, o candidato de esquerda que a enfrentará na segunda volta, ficou em segundo por margem ainda mais estreita. O voto de direita dividiu-se em três — Fujimori, Rafael López Aliaga e uma constelação de outros cujos nomes apareceram em boletins de voto do tamanho de toalhas de mesa. A esquerda consolidou-se atrás de Sánchez. Este é o facto estrutural que as sondagens obscurecem: Fujimori lidera nas sondagens para a segunda volta com 39% contra 35% de Sánchez [28], mas essa diferença de quatro pontos assenta sobre uma primeira volta em que a direita coletivamente conquistou mais votos do que sabe o que fazer com eles.